terça-feira, 30 de novembro de 2010

Coragem para Crer

Élder Walter F. Gonzáles - Primeiro Conselheiro na Presidência da Área Brasil Norte (Fevereiro/2007)


Élder Walter F. Gonzáles

A Família — Proclamação ao Mundo nos ensina que “a felicidade na vida familiar é mais provável de ser alcançada quando fundamentada nos ensinamentos do Senhor Jesus Cristo”. Essa proclamação apresenta princípios e ensinamentos que nos ajudam a fundamentar nossa vida no Salvador. Um desses princípios é a fé.

No Velho Testamento, vemos a história de Elias e a viúva de Sarepta. A história mostra a coragem da viúva ao crer nas palavras do profeta. Essa coragem é um exemplo de como podemos exercitar nossa fé. A escritura diz que o profeta foi para Sarepta e, na entrada da cidade, encontrou-se com a viúva que estava apanhando lenha. Elias “a chamou, e lhe disse: Traze-me, peço-te, num vaso um pouco de água que beba. E, indo ela a trazê-la, ele a chamou e lhe disse: Traze-me agora também um bocado de pão na tua mão”.

O pedido era demasiado para ela, que respondeu explicando a sua situação: “Vive o Senhor teu Deus, que nem um bolo tenho, senão somente um punhado de farinha numa panela, e um pouco de azeite numa botija; e vês aqui apanhei dois cavacos, e vou prepará-lo para mim e para o meu filho, para que o comamos, e morramos”. O profeta respondeu com um pedido e uma promessa: “Não temais; vai, faze conforme à tua palavra; porém faze dele primeiro para mim um bolo pequeno, e traze-mo aqui; depois farás para ti e para teu filho.” Então ele fez a promessa: “Porque assim diz o Senhor Deus de Israel: A farinha da panela não se acabará, e o azeite da botija não faltará até ao dia em que o Senhor dê chuva sobre a terra”.

Imaginem como nós reagiríamos, face a uma circunstância semelhante. Será que acreditaríamos nas palavras do profeta e nas promessas de Deus? Teríamos coragem para crer? A viúva teve. O relato bíblico diz que ela fez conforme fora instruída pelo profeta e, com isso, também aprendemos que as promessas se cumpriram. “E assim comeu ela, e ele, e a sua casa muitos dias. Da panela a farinha não se acabou, e da botija o azeite não faltou; conforme a palavra do Senhor, que ele falara pelo ministério de Elias” (I Reis 17:10-16).

Com a restauração do evangelho, temos o conhecimento da doutrina e dos princípios que os antigos também conheceram. Uma das coisas que conhecemos de Deus é que Ele não pode mentir. Mahonri Moriancumer conhecia esse atributo de Deus. Quando o Senhor lhe perguntou: “Crês nas palavras que eu direi? [E] ele respondeu: Sim, Senhor, eu sei que falas a verdade, porque és um Deus de verdade e não podes mentir”. Em Doutrina e Convênios, o próprio Senhor declarou: “Eu, o Senhor, prometo aos fiéis e não posso mentir” (D&C 62:6). Isso significa que quando o Senhor faz uma promessa, vai cumpri-la. Nós precisamos ter coragem para crer, tal como fez a viúva de Sarepta.

O temor muitas vezes priva o cumprimento de promessas feitas. Em D&C 67:3 aprendemos: “Esforçastes-vos para crer que receberíeis a bênção que vos fora oferecida; mas eis que em verdade vos digo que havia temores em vosso coração e, em verdade, esta é a razão por que não a recebestes”. Para vencer esses temores, temos de ter coragem para crer.

As ordenanças, a palavra de Deus proferida pelos profetas nas escrituras e pelos profetas vivos, bem como os convênios que fazemos estão cheios de promessas. Temos coragem para crer nessas promessas? Podemos demonstrar essa coragem pagando os dízimos integralmente, seguindo os conselhos do Presidente da Igreja e cumprindo muitos outros princípios. Por exemplo, os jovens acreditam na promessa de adquirir sabedoria buscando o maior grau de escolaridade possível. O Presidente Gordon B. Hinckley declarou: “Vocês pertencem a uma Igreja que prega a importância da educação. Vocês receberam o mandamento do Senhor de educar a mente, o coração e as mãos (…) Ele deseja que vocês treinem a mente e as mãos para que sejam uma influência positiva ao longo da vida. E ao fazerem isso, ao agirem com honradez e excelência”, o profeta de Deus promete, “trarão honra para a Igreja, pois serão respeitados como homens ou mulheres de integridade, capacidade e competência. Sejam inteligentes. Não sejam tolos. Vocês não podem enganar nem iludir as pessoas nem a si mesmos” (“Conselhos e Oração do Profeta para os Jovens”, A Liahona, abril de 2001, p. 34).

Finalmente, poderíamos evidenciar se temos coragem para crer nas promessas feitas pelo Salvador em Seu grande sacrifício expiatório. Muitas pessoas acham que já fizeram de tudo para serem perdoadas, mas de alguma forma ainda não sentem esse perdão. Alma, o filho, é um exemplo de como a Expiação é o meio pelo qual o peso do fardo é retirado de cada um de nós. Realmente temos coragem para crer na Expiação e em seus efeitos, em todos os dias de nossa vida? Alma sentiu que “estava sendo assim atormentado e (…) estava perturbado pela lembrança de tantos pecados”. Nesse momento, ele relata: “Eis que me lembrei também de ter ouvido meu pai profetizar ao povo sobre a vinda de um Jesus Cristo, o Filho de Deus, para expiar os pecados do mundo” (Alma 36:17).

Ao lembrar os ensinamentos que tinha recebido, Alma teve coragem para crer. Ele acreditou nos ensinamentos sobre a Expiação, fazendo dela uma coisa real em sua vida. “Ora, tendo fixado a mente nesse pensamento, clamei em meu coração: Ó Jesus, tu que és Filho de Deus, tem misericórdia de mim que estou no fel da amargura e rodeado pelas eternas correntes da morte” (Alma 36:18).

Ao fazer da Expiação uma realidade em sua vida, Alma recebeu os benefícios das promessas contidas na doutrina de como o Salvador pode ajudar-nos, dia após dia. Ele contou a seu filho Helamã: “E então, eis que quando pensei isto, já não me lembrei de minhas dores; sim, já não fui atormentado pela lembrança de meus pecados”. E, então, a promessa aconteceu: “E oh! que alegria e que luz maravilhosa contemplei! Sim, minha alma encheu-se de tanta alegria quanta havia sido minha dor” (Alma 36:19–20).

Ter coragem para crer, tal como no episódio da viúva de Sarepta, pode fazer uma grande diferença em nossa vida. O Salvador ensinou-nos que ter coragem para crer é um mandamento, ao indicar ao principal da sinagoga: “Não temas, crê somente” (Marcos 5:36).

Eu sei que o Salvador é um Deus que não pode mentir, e que as Suas promessas sempre se cumprem, “seja pela [Sua própria] voz ou pela de [Seus] servos, é o mesmo” (D&C 1:37–38).

É uma grande benção termos o evangelho da esperança, que possibilita que nossa vida seja grandemente abençoada, para sermos cada vez melhores diante dos olhos do Senhor.

domingo, 21 de novembro de 2010

Uma Perspectiva Correta Que Conduz à Felicidade

Élder Adhemar Damiani - Primeiro Conselheiro na Presidência da Área Brasil Sul (Junho/2005)

Élder Adhemar Damiani

O que é mais importante para mim? A família? A Igreja? O trabalho? O estudo? O que deve ter prioridade? Essas são questões fundamentais que precisamos responder adequadamente para podermos ter paz e alegria.

O Presidente Gordon B. Hinckley disse: “Cada um de nós tem quatro responsabilidades. Primeiro, somos responsáveis por nossa família. Segundo, temos uma responsabilidade para com o nosso emprego. Terceiro, temos a responsabilidade de fazer o trabalho do Senhor. Quarto, temos uma responsabilidade em relação a nós mesmos”.1

Essas instruções dadas aos líderes do sacerdócio aplicam-se perfeitamente a cada um de nós, sejamos líderes ou não, casados ou não, jovens ou adultos.

A Família
Ele disse: “Primeiro, é fundamental que não negligenciem sua família. Nada que vocês possuam
é mais precioso. (…) No final de tudo, é o relacionamento familiar que levaremos para além desta vida. Parafraseando as escrituras: ‘Pois que aproveita ao homem servir fielmente na Igreja e perder sua própria família?’ (Ver Marcos 8:36.) Determinem junto com eles quanto tempo vocês passarão com eles e quando. E depois cumpram o combinado. Não deixem que nada interfira nisso. Considerem-no algo sagrado. Considerem-no um compromisso a ser cumprido. Considerem-no um merecido momento a ser desfrutado. Considerem a noite de segunda-feira sagrada para a reunião familiar. Reservem uma noite para estarem sozinhos com sua esposa. Programem umas férias com toda a família”.1

Como está o meu relacionamento com minha (meu) esposa (o)? Como está meu relacionamento com meus filhos? Eles confiam em mim? Compartilham comigo seus desafios pessoais? Como está meu relacionamento com meus pais e irmãos? Tenho dedicado tempo adequado a eles? Tenho tido alegria em minha família? Tenho feito reuniões familiares a cada semana? Tenho feito conselhos de família regularmente, para juntos decidirmos o que é melhor para nossa família? Tenho saído semanalmente com minha (meu) esposa (o) para namorar, sonhar, visualizar nosso futuro? Tenho tido um tempo semanal com minha família para nos divertir? Tenho entrevistado regularmente cada um de meus filhos?

O Emprego ou Trabalho
O Presidente Hinckley disse: “Em segundo lugar, seu emprego, ou seu patrão. Sejam honestos com seu empregador. Não façam o trabalho da Igreja no horário de serviço. Sejam leais a ele. Ele os remunera e espera resultados de vocês. Vocês precisam de seu emprego para cuidar de sua família. Sem ele, não poderão trabalhar eficazmente na Igreja”.1

Atualmente está cada vez mais difícil conseguir um emprego ou manter-se nele. O que estou fazendo para meu aperfeiçoamento profissional? O que tenho feito para preparar-me para situações de desemprego? Estou procurando aprender coisas novas a cada dia? Minha preocupação é ter um emprego ou ter um trabalho digno? Tenho sido honesto para com o Senhor, devolvendo a Ele o dízimo de tudo o que Ele me concede?

A Igreja
“Terceiro, o Senhor e Sua Obra. Programem seu horário para cuidar de suas responsabilidades na Igreja.” 1

Vejo meu chamado como uma oportunidade para servir? Ou para ser servido? Estou sempre pronto para servir ao próximo? Como estou servindo ao Senhor? Na Igreja não importa onde servimos, mas sim como servimos.

Crescimento Pessoal
“Quarto, todo líder da Igreja tem uma obrigação para consigo mesmo. Ele precisa de repouso e exercícios. Precisa de um pouco de recreação (…) precisa ler as escrituras. Precisa de tempo para ponderar, meditar e pensar sozinho. Sempre que possível, ele precisa ir com sua esposa ao templo.”

Tenho cuidado adequadamente de minha saúde? Estou estudando regularmente as escrituras? Ou estou simplesmente lendo? Estou aplicando os princípios em minha vida pessoal? Tenho ido regularmente ao templo?

Um Tempo para Tudo
Vivemos num mundo atribulado e com muitos desafios. Muitas pessoas e acontecimentos requerem simultaneamente a nossa atenção. Somos tentados a negligenciar uma ou mais de nossas principais responsabilidades.

O conselho de nosso profeta é: “Com ponderada reflexão e cuidadoso planejamento, podemos programar nosso horário para atender a todas elas. Não devemos, irmãos, não podemos negligenciar nenhuma delas. O Senhor não espera que sejamos super-homens. Mas se nos colocarmos em Suas mãos, se suplicarmos a Ele em oração, Ele nos inspirará e ajudará. Ele magnificará nossa capacidade e nos colocará à altura de nossa responsabilidade”.1

Estou buscando a orientação do Senhor em tudo o que faço? O uso de meu tempo está de acordo com as prioridades estabelecidas pelo Senhor? O que estou fazendo está unindo e fortalecendo minha família? O que estou fazendo para ser totalmente auto-suficiente financeira, espiritual e emocionalmente?

Ser Feliz
Muitas vezes nos sentimos frustrados e infelizes com tanto a fazer e com tão pouco tempo. Fazemos muito e nos sentimos culpados por não podermos fazer tudo o que pensamos que deveríamos fazer. Nessas ocasiões geralmente deixamos de lado as coisas que realmente são importantes.

O conselho do profeta é: “Irmãos, se vocês estão sempre reclamando que têm muito o que fazer, então vocês têm mesmo muito o que fazer. Precisam livrar-se de parte dessas coisas, porque um líder descontente é um mau líder. Irmãos, quero pedirlhes que sejam felizes em seu trabalho. Tenham um sorriso no rosto e um hino no coração ao servirem ao Senhor. Sou um homem velho agora. Simplesmente não tenho mais a energia que tinha no passado. Mas não me permitirei sentir-me infeliz ao fazer o que posso fazer”.

“As exigências são muito grandes. (…) Quero fazer melhor, quero que as coisas melhorem. Mas sei que não posso fazer isso sozinho. (…) Tenho a grande bênção da oração. E o mesmo acontece com cada um de vocês. Tenho a oportunidade de ajoelhar-me e pedir ao Senhor que me mostre o caminho e me dê forças e o desejo e a sabedoria para cumprir o que Ele quer que seja feito.” 1

Estou feliz com minha situação atual? Demonstro que sou uma pessoa feliz? O que estou fazendo, que não deveria fazer? O que deveria fazer, que realmente é importante? O que estou fazendo, que me levará à vida eterna e exaltação?

Fazer o Melhor
“Nenhum de nós realizará tudo o que desejar. Mas façamos o melhor que pudermos. Tenho certeza de que o Redentor então dirá: ‘Bem está, servo bom e fiel’ (Mateus 25:21).”

Haverá etapas em nossa vida nas quais precisaremos dedicar mais tempo e mais atenção a nossa família. Em outras ocasiões, a prioridade será o estudo, ou o trabalho, ou a Igreja.

O Senhor disse: “Façamos alegremente todas as coisas que estiverem a nosso alcance; e depois aguardemos, com extrema segurança, para ver a salvação de Deus e a revelação de seu braço”. 2

O que o Senhor espera de nós? Fazer, não ficar parado reclamando. Fazer com alegria, não ficar desanimado. Fazer tudo o que está ao nosso alcance. Só nós e o Senhor sabemos o que está ao nosso alcance neste momento. Depois, confiar plenamente no Senhor. Então, Ele fará os milagres necessários em nossa vida.

Quando temos uma vida equilibrada, quando fazemos com alegria tudo o que está ao nosso alcance, e quando seguimos as prioridades estabelecidas pelo Senhor, (1º.) família, (2º.) trabalho, (3º.) Igreja e (4º.) crescimento pessoal, então temos paz, e somos felizes.

Notas:
1. Presidente Gordon B. Hinckley — Reunião Mundial de Treinamento da Liderança, em 21 de junho de 2003.
2. D&C 123:17.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Reflexões sobre uma Vida Consagrada

D. Todd Christofferson
Do Quórum dos Doze Apóstolos

O verdadeiro sucesso nesta vida advém da consagração de nossa vida — ou seja, de nosso tempo e escolhas — aos propósitos de Deus

Elder D. Todd ChristoffersonQuando jovem, visitei a Feira Mundial de 1964 na Cidade de Nova York. Um de meus estandes favoritos era o pavilhão da Igreja SUD, com sua impressionante réplica das torres do templo de Salt Lake. Foi lá que vi pela primeira vez o filme O Homem em Busca da Felicidade. A exposição do plano de salvação mostrada no filme, que era narrada pelo Élder Richard L. Evans, teve uma influência marcante na vida de muitos visitantes, inclusive na minha. Entre outras coisas, o Élder Evans dizia:

“A vida lhe oferece duas dádivas preciosas — uma é o tempo e, a outra, a liberdade de escolha — a liberdade de comprar com seu tempo o que você quiser. Você é livre para investir seu tempo na busca de emoções. Na gratificação de desejos vis. Pode investi-lo em ganância. (…)

Você tem a liberdade de escolha. Mas não serão uma boa troca, porque nelas você não terá uma satisfação duradoura.

Chegará o momento em que você terá de prestar contas de cada dia, cada hora, cada minuto de sua vida mortal. E é nesta vida que você caminha pela fé e prova que é capaz de escolher o bem em vez do mal, o certo em vez do errado, a felicidade duradoura em vez da mera diversão. E sua recompensa eterna será de acordo com suas escolhas.

Um profeta de Deus disse: ‘O homem existe para que tenha alegria’ — uma alegria que inclui uma vida plena, uma vida dedicada ao serviço, ao amor e à harmonia no lar, aos frutos do trabalho honesto e a aceitação do evangelho de Jesus Cristo, seus requisitos e mandamentos.

Somente nessas coisas você encontrará a verdadeira felicidade, uma felicidade que não se dissipa com as luzes, a música e as multidões”.1

Essas declarações expressam a realidade de que nossa vida na Terra é uma mordomia de tempo e escolhas que nos foi concedida por nosso Criador. A palavra mordomia nos traz à mente a lei da consagração do Senhor (ver, por exemplo, D&C 42:32, 53), que tem um aspecto financeiro porém, mais que isso, é uma aplicação da lei celestial à vida aqui na Terra (ver D&C 105:5). Consagrar significa separar ou dedicar algo para que se torne sagrado, dedicado a propósitos santos. O verdadeiro sucesso nesta vida advém da consagração de nossa vida — ou seja, de nosso tempo e escolhas — aos propósitos de Deus (ver João 17:1, 4; D&C 19:19). Ao fazê-lo, permitimos que Ele nos erga até o nosso destino mais elevado.

Gostaria de abordar com vocês cinco dos aspectos de uma vida consagrada: a pureza, o trabalho, o respeito pelo corpo físico, o serviço e a integridade.

Conforme demonstrou o Salvador, uma vida consagrada é uma vida pura. Embora Jesus tenha sido o único a levar uma vida sem pecados, aqueles que se achegam a Ele e tomam o Seu fardo sobre si têm direito a Sua graça, que os tornará como Ele é: sem culpa e sem mancha. Com profundo amor, o Senhor nos encoraja com estas palavras: “Arrependei-vos todos vós, confins da Terra; vinde a mim e sede batizados em meu nome, a fim de que sejais santificados, recebendo o Espírito Santo, para comparecerdes sem mancha perante mim no último dia” (3 Néfi 27:20).

Consagração, portanto, significa arrependimento. A teimosia, a rebelião e a racionalização precisam ser abandonadas, sendo substituídas pela submissão, pelo desejo de ser corrigido e pela aceitação de tudo o que o Senhor exigir. Foi isso que o rei Benjamim chamou de despojar-se do homem natural, ceder aos influxos do Santo Espírito e tornar-se “santo pela expiação de Cristo, o Senhor” (Mosias 3:19). Ao fazermos isso recebemos a promessa da presença constante do Santo Espírito, uma promessa que é relembrada e renovada cada vez que uma alma penitente toma o sacramento da ceia do Senhor (ver D&C 20:77, 79).

O Élder B. H. Roberts explicou esse processo da seguinte forma: “O homem que anda na luz, na sabedoria e no poder de Deus acabará, pela própria força da associação, fazendo com que essa luz, sabedoria e poder de Deus se tornem seus, tecendo com esses raios brilhantes uma corrente divina, que o une a Deus e Deus a ele para sempre. Essa [é] a essência das místicas palavras do Messias, ‘tu, ó Pai, em mim, e eu em ti’, que é a condição mais elevada que um homem pode alcançar”.2

Uma vida consagrada é uma vida de trabalho árduo. Desde bem cedo em Sua vida, Jesus cuidou dos assuntos de Seu Pai (ver Lucas 2:48–49). O próprio Deus é glorificado por Sua obra de levar a efeito a imortalidade e vida eterna de Seus filhos (ver Moisés 1:39). É natural que desejemos participar com Ele de Sua obra, e ao fazê-lo, devemos reconhecer que todo trabalho honesto é a obra de Deus. Nas palavras de Thomas Carlyle: “Todo Trabalho verdadeiro é sagrado; em todo Trabalho verdadeiro, ainda que seja apenas um trabalho braçal, há algo de divino. O trabalho árduo, amplo como a Terra, tem seu ponto culminante no Céu”. 3

Deus determinou que esta existência mortal exija um esforço quase constante. Vêm-me à mente esta simples declaração do Profeta Joseph Smith: “Trabalhando continuamente, conseguíamos viver de maneira confortável” (Joseph Smith — História 1:55) Por meio do trabalho sustentamos e enriquecemos a vida. Ele nos permite sobreviver às frustrações e tragédias da vida mortal. Uma realização alcançada arduamente proporciona um sentimento de valor próprio. O trabalho edifica e refina o caráter, cria beleza e é o instrumento de nosso serviço ao próximo e a Deus. Uma vida consagrada é cheia de trabalho, às vezes repetitivo, às vezes braçal, às vezes pouco reconhecido, mas sempre um trabalho que melhora, que organiza, que sustém, que eleva, que ministra e que aprimora.

Depois de louvar o trabalho, tenho também de falar algo de bom sobre o lazer. Assim como o labor honesto torna o descanso agradável, a recreação sadia é a amiga e constante companheira do trabalho. A música, a literatura, as artes, a dança, o teatro, os esportes — tudo isso pode prover entretenimento para enriquecer a vida e consagrá-la ainda mais. Por outro lado, nem é preciso dizer que grande parte do que se considera entretenimento hoje em dia são coisas vulgares, degradantes, violentas, alienantes e que desperdiçam nosso tempo. Ironicamente, muitas vezes é preciso trabalho árduo para encontrar um lazer sadio. Quando o entretenimento passa da virtude ao vício, ele se torna um destruidor da vida consagrada. “Portanto tende cuidado (…) a fim de que não julgueis ser de Deus o que é mau” (Morôni 7:14).

Uma vida consagrada respeita a incomparável dádiva do corpo físico, uma criação divina feita à própria imagem de Deus. O propósito principal da vida mortal é o de que todo espírito receba um corpo assim, e aprenda a exercer o arbítrio moral em um tabernáculo de carne. O corpo físico também é essencial à exaltação, que somente é alcançada pela combinação perfeita do físico com o espiritual, como vemos em nosso amado Salvador ressuscitado. Neste mundo decaído, alguns terão uma vida dolorosamente curta; outros terão um corpo deformado, débil ou pouco adequado para manter a vida; mas a duração da vida será suficientemente longa para cada espírito, e cada corpo terá direito à ressurreição.

Aqueles que acreditam que nosso corpo nada mais é do que o resultado de uma evolução aleatória não sentem que devem prestar contas a Deus, ou a qualquer outra pessoa, pelo que fazem com o próprio corpo. Nós, que temos um testemunho da realidade mais ampla da eternidade pré-mortal, mortal e pós-mortal, porém, precisamos reconhecer que temos um dever para com Deus em relação a essa sublime realização de Sua criação física. Nas palavras de Paulo:

“ Não sabeis que o vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós mesmos?

Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo, e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” (I Coríntios 6:19–20).

Se reconhecermos essas verdades e a orientação do Presidente Thomas S. Monson dadas na última conferência geral de abril, certamente não vamos desfigurar o corpo, com tatuagens; nem o debilitar, com drogas; nem o desonrar, com fornicação, adultério ou falta de recato.4 Por ser o instrumento de nosso espírito, é vital que cuidemos deste corpo da melhor forma possível. Devemos consagrar seus poderes para servir e levar adiante o trabalho de Cristo. Paulo disse: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus” (Romanos 12:1).

Jesus mostrou que uma vida consagrada é uma vida de serviço. Horas antes do início da agonia de Sua Expiação, o Senhor humildemente lavou os pés de Seus discípulos, dizendo-lhes:

“Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros.

Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também.

Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que aquele que o enviou (João 13:14–16).

Aqueles que discreta e prestativamente fazem o bem são um exemplo de consagração. Ninguém em nossos dias demonstra de modo mais perfeito essa característica na vida diária do que o Presidente Thomas S. Monson. Ele desenvolveu um ouvido que sabe ouvir, para poder discernir até o mais suave sussurro do Espírito que lhe sinaliza as necessidades de alguém que ele pode alcançar e ajudar. Geralmente são atos simples que confirmam o amor e a preocupação divinos, mas Thomas Monson sempre — sempre — atende à inspiração.

Encontrei na vida de meu avô e de minha avó, Alexander DeWitt e Louise Vickery Christofferson, um exemplo dessa consagração. Vovô era um homem forte e sabia tosquiar ovelhas muito bem, antes da época dos tosquiadores elétricos. Era tão bom nisso, que contava: “Certo dia, tosquiei 287 ovelhas, e poderia ter tosquiado mais de 300, mas não havia tantas assim”. Em 1919, ele tosquiou mais de 12.000 ovelhas, ganhando com isso cerca de dois mil dólares. Poderia ter usado o dinheiro para aumentar significativamente sua fazenda e reformar a casa, mas recebeu dos líderes da Igreja um chamado para servir na Missão dos Estados do Sul e, com todo o apoio de Louise, ele o aceitou. Deixou a mulher (que estava grávida do primeiro filho, meu pai) e as três filhas com o dinheiro da tosquia das ovelhas. Em seu feliz retorno, dois anos depois, ele comentou: “Nossas economias nos sustentaram durante os dois anos, e ainda nos restaram 29 dólares”.

Uma vida consagrada é uma vida íntegra. Vemos isso no marido e na mulher “que [honram] os votos matrimoniais com total fidelidade”.5 Vemos isso no pai e na mãe cuja prioridade é comprovadamente nutrir seu casamento e garantir o bem-estar físico e espiritual dos filhos. Vemos isso nos que são honestos.

Há vários anos, conheci duas famílias que estavam no processo de dissolução de um empreendimento comercial conjunto. Os dois diretores, que eram amigos e membros da mesma congregação cristã, haviam criado a empresa vários anos antes. De modo geral, tiveram um relacionamento harmonioso como sócios, mas à medida que foram envelhecendo e a nova geração começou a participar dos negócios, surgiram conflitos. Por fim, as duas partes decidiram que seria melhor dividir os ativos e seguir rumos separados. Um dos sócios originais elaborou um estratagema com seus advogados que lhe garantiu uma significativa vantagem financeira na dissolução, em detrimento do outro sócio e dos filhos. Numa reunião dos sócios, um dos filhos reclamou do modo injusto como haviam sido tratados e apelou para a honra e as crenças cristãs do primeiro sócio. “Você sabe que isso não está certo”, disse ele. “Como é que pode tirar vantagem de alguém dessa maneira, especialmente de um irmão da mesma igreja?” O advogado do primeiro sócio replicou: “Ora, veja se cresce! Como pode ser tão ingênuo?”

Integridade não é ingenuidade. Ingênuo é quem acha que não teremos de prestar contas a Deus. O Salvador declarou: “Meu Pai enviou-me para que eu fosse levantado na cruz (…) [e], assim como fui levantado pelos homens, assim sejam os homens levantados pelo Pai, para comparecerem perante mim a fim de serem julgados por suas obras, sejam elas boas ou más” (3 Néfi 27:14). Quem vive uma vida consagrada não busca tirar vantagem dos outros, mas oferece a outra face e, se lhe exigirem que entregue a túnica, dá a capa também (ver Mateus 5:39–40). As mais severas reprimendas do Salvador foram para os hipócritas. A hipocrisia é terrivelmente destrutiva, não apenas para quem é hipócrita, mas também para todos os que observam ou conhecem sua conduta, especialmente os filhos. Ela destrói a fé, ao passo que a honra é o rico solo no qual a semente da fé viceja.

Uma vida consagrada é uma coisa bela. Sua força e serenidade são “como uma árvore muito frutífera, plantada em terra fértil junto a um riacho de água pura, que produz muitos frutos preciosos” (D&C 97:9). É de especial importância a influência que um homem [ou mulher] consagrado tem sobre as pessoas, particularmente as mais próximas e queridas. A consagração de muitos que nos antecederam, assim como a de outros que vivem entre nós, ajudou a estabelecer o alicerce de nossa felicidade. De igual maneira, as gerações futuras serão encorajadas por nossa vida consagrada, reconhecendo a dívida que têm para conosco pela posse de tudo o que realmente importa. Que nos consagremos como filhos e filhas de Deus, para “que quando ele aparecer, sejamos como ele, porque o veremos como ele é; que tenhamos esta esperança” (Morôni 7:48; ver também I João 3:2). É minha oração, em nome de Jesus Cristo. Amém.

Notas
1. Man’s Search for Happiness , (folheto, 1969), pp. 4–5.
2. B. H. Roberts, “Brigham Young: A Character Sketch”, Improvement Era, junho de 1903, p. 574.
3. Thomas Carlyle, Past and Present, 1843, p. 251.
4. Ver Thomas S. Monson, “A Preparação Traz Bênçãos”, A Liahona e Ensign, maio de 2010, pp. 64–67.
5. “A Família: Proclamação ao Mundo”, A Liahona, outubro de 2004, última contra capa; Ensign, novembro de 1995, p.102.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Decisões

Élder Robert R. Steuer - Presidente da Área Brasil Norte (Setembro/2005)

Muitas decisões não são fáceis e, às vezes, achamos que seremos mais livres e não teremos obrigação alguma, se simplesmente não nos decidirmos. Mas o fato de ser ambíguos, de evitar decisões ou tomá-las com indiferença desvia-nos da verdade e do progresso individual. Reconhecer e seguir a verdade é o caminho da integridade e da verdadeira liberdade pessoal. E é com base nessa verdade, sobre a qual Jesus disse que nos tornaria livres, que o Senhor quer que tomemos decisões sábias e que assumamos compromissos. Conforme Ele disse a João, o Revelador: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz. (…) Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente. (…) Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca”1

Há momentos em que muitos gostariam de acreditar que só existem verdades “relativas”. O Élder Russell M. Nelson disse: “É claro que a verdade não é ‘relativa’. Só a compreensão humana da verdade é ‘relativa’. Mas a verdade proclamada pela Deidade é tão absoluta quanto a própria Deidade, que definiu tal verdade como sendo o ‘conhecimento das coisas como elas são, como foram e como serão’” 2. As verdades não podem ser discutidas, redefinidas nem corrigidas. O Presidente Spencer W. Kimball observou: “Se os quatro bilhões de pessoas no mundo acreditassem que ele [o mundo] é plano, estariam erradas. Essa é uma verdade absoluta e nem todas as discussões do mundo a mudariam” 3. Ao falar sobre os Dez Mandamentos, o Élder Neal A. Maxwell explicou: “Somos, evidentemente, livres para obedecer — ou não — a esses mandamentos. Não temos liberdade para tentar corrigi-los, por exemplo: ‘Não cometerás adultério, exceto se for entre adultos de comum acordo’. (…) É preferível que queiramos as conseqüências daquilo em que acreditamos ou não acreditamos, porque as conseqüências certamente virão” 4. Há recompensas por nossa obediência e punições por nossa desobediência ou “(…) Deus deixaria de ser Deus” 5.

O Apóstolo Paulo descreveu nossa época assim: “Nos últimos dias (…) haverá homens amantes de si mesmos. (…) Que aprendem sempre, e nunca podem chegar ao conhecimento da verdade” 6. Aprender sempre pode ser interessante, mas não podemos experimentar cada canto intrigante da vida. Somos lembrados de que não é uma questão de se aceitaremos a verdade divina, mas sim uma questão de quando 7. Aprendemos que “(…) se dobre todo o joelho (…) e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor (…)” 8, e que não há nenhum outro caminho ou meio pelo qual a salvação seja concedida aos homens 9.

Quando compreendemos e aceitamos os princípios verdadeiros, nossas decisões se tornam mais claras e menos confusas. Mas é importante saber que “(…) os tesouros tanto do conhecimento secular quanto do espiritual estão escondidos (…) escondidos daqueles que não o buscam nem se esforçam por encontrá-los da maneira apropriada. (…) O conhecimento espiritual não fica à disposição se simplesmente for pedido; nem mesmo orações serão suficientes. Ele requer persistência e dedicação na vida da pessoa (…)” 10. Ponderação, exame, inspeção, estudo, experimentação e reflexão11 também fazem parte do preço a ser pago para encontrar esse conhecimento espiritual. Quando descobrimos esses tesouros, só então reconhecemos e valorizamos corretamente a inspiração do Senhor em nossa vida, o que nos motiva ainda mais. Como disse o Élder Russell M. Nelson: “Existem poucas recompensas tão estimulantes quanto a descoberta da verdade” 12.

Assim, a aceitação das verdades pode tornar-nos livres 13: livres da ambivalência, da ambigüidade, das tentativas, desculpas e da ignorância. Aceitar as verdades exige a obediência aos sentimentos do Espírito, autodisciplina e coragem para viver o que é certo. “Exigirá o mesmo tipo de coragem que os espartanos demonstraram, quando tenazmente defenderam um desfiladeiro na montanha contra um número esmagador de persas. Foi dito aos espartanos que se não desistissem, os arqueiros do exército persa, que eram muitos, escureceriam os céus com suas flechas. Diante do ultimato, os espartanos disseram simplesmente: ‘Quanto mais, melhor: lutaremos no escuro!’” 14

Com esse tipo de coragem, podemos aceitar um princípio verdadeiro como ele realmente é: “É o que é”, sem debates, sem evasivas nem hesitação. Dessa maneira, ao seguirmos a inspiração do Espírito Santo, encontraremos soluções 15 e utilizaremos sabiamente nosso precioso dom do tempo. O poder na verdade confere compromisso total a nossa vida, e clareza para nossas decisões, dando-nos a certeza de que o curso de nossa vida está de acordo com a vontade de Deus 16.

NOTAS
1. Apocalipse 3:13–16.
2. Russell M. Nelson, “Truth—and More”, Ensign, janeiro de 1986, p. 69.
3. Spencer W. Kimball, “Absolute Truth”, Ensign, setembro de 1978, p. 3.
4. Neal A. Maxwell, “The Prohibitive Costs of a Value-free Society”, Ensign, outubro de 1978, p. 52.
5. Ver Alma 42:16–22.
6. II Timóteo 3:1–7.
7. Spencer W. Kimball, “Absolute Truth”, Ensign, setembro de 1978, p. 3.
8. Ver Filipenses 2:10–11.
9. Ver Mosias 3:17.
10. The Teachings of Spencer W. Kimball, pp. 389–390.
11. Richard G. Scott, “Acquiring Spiritual Knowledge”, Ensign, novembro de 1993, p. 86.
12. Russell M. Nelson, “Truth—and More”, Ensign, janeiro de 1986, p. 69.
13. Ver João 8:32.
14. Neal A. Maxwell, “The Prohibitive Costs of a Value-free Society”, Ensign, outubro de 1978, p. 52.
15. Ver Morôni 10:5.
16. Joseph Smith, comp. de Lectures on Faith, [2000], p. 39.

Artigo extraido de http://www.lds.org.br/brz_mn_show.asp?v_section=5&v_codi=7&v_mask=AKLPORDART