domingo, 19 de junho de 2011

Que Firme Alicerce

Presidente Thomas S. Monson
Primeiro Conselheiro na Primeira Presidência

Podemos reforçar nosso alicerce de fé e nosso testemunho da verdade, para que não vacilemos, não fracassemos.

Meus queridos irmãos e irmãs, tanto os que estão ao alcance de minha visão quanto os que se acham reunidos no mundo inteiro, busco sua fé e orações ao atender à designação e ao privilégio de dirigir-me a vocês.

Em 1959, não muito tempo depois de iniciar meu serviço como presidente da Missão Canadense, sediada em Toronto, Ontário, Canadá, conheci N. Eldon Tanner, um proeminente canadense que, apenas dois meses depois, seria chamado como Assistente do Quórum dos Doze Apóstolos, logo a seguir, como membro do Quórum dos Doze e, depois, como conselheiro de quatro Presidentes da Igreja.

Quando conheci o Presidente Tanner, ele era presidente da grande Trans-Canadá Pipelines Ltd. e presidente da Estaca Canadá Calgary. No Canadá, era conhecido como “Mister Integridade”. Naquele primeiro encontro falamos, entre outros assuntos, do rigoroso inverno canadense, no qual as tempestades eram violentas, as temperaturas caíam bem abaixo da de congelamento durante semanas seguidas, e os ventos glaciais baixavam ainda mais as temperaturas. Perguntei ao Presidente Tanner por que as estradas e rodovias do oeste do Canadá basicamente permaneciam intactas durante tais invernos, mostrando pouco ou nenhum sinal de rachaduras ou rompimentos, enquanto a superfície das estradas de muitas áreas, onde o inverno é menos frio e rigoroso, apresenta rachaduras, rompimentos e buracos.

Ele disse: “A resposta está na profundidade da base dos materiais de pavimentação. Para que eles permaneçam firmes e não se rompam, é necessário aprofundar muito as camadas da base. Quando essas não são profundas o bastante, a superfície não suporta as temperaturas extremas”.

Com o passar dos anos, pensei com freqüência nessa conversa e na explicação do Presidente Tanner, pois reconheci em suas palavras uma grandiosa aplicação para nossa vida. Simplificando, se não tivermos um firme alicerce de fé e um testemunho sólido da verdade, poderá ser difícil enfrentar as tempestades violentas e os ventos glaciais da adversidade que inevitavelmente atingem cada um de nós.

A mortalidade é um período de testes, um período para nos mostrarmos dignos de retornar à presença de nosso Pai Celestial. Para sermos testados, precisamos enfrentar desafios e dificuldades. Eles podem nos destruir, e a superfície de nossa alma poderá rachar e desmoronar — isto é, se o nosso alicerce de fé e o nosso testemunho da verdade não estiverem firmemente enraizados em nós.

Podemos contar com a fé e o testemunho de outros, por certo tempo. No final, é preciso que o nosso próprio alicerce esteja firme e profundamente enraizado, ou seremos incapazes de suportar as tempestades da vida, que certamente virão. Tais tempestades chegam-nos de várias formas. Podemos defrontar-nos com a tristeza e o sofrimento de ver um filho obstinado preferir afastar-se do caminho que leva à verdade eterna e divagar pelas ladeiras escorregadias do erro e da desilusão. A doença pode acometer-nos ou a um ente querido, trazendo sofrimento e, às vezes, a morte. Acidentes podem deixar sua marca cruel na memória ou mesmo ceifar vidas. A morte chega ao idoso, à medida que caminha, vacilante. Sua convocação é ouvida por aqueles que mal chegaram ao meio do caminho na jornada da vida e, com freqüência, silencia o riso das criancinhas.

Às vezes, parece que não há luz no fim do túnel, nenhuma aurora para dispersar a escuridão da noite. Sentimo-nos circundados pela dor de um coração partido, pela desilusão de sonhos despedaçados e pela angústia de esperanças perdidas. Unimo-nos ao apelo bíblico: “Porventura não há bálsamo em Gileade?” (Jeremias 8:22) Ficamos inclinados a ver nossos infortúnios através do prisma distorcido do pessimismo. Sentimo-nos abandonados, inconsoláveis, sozinhos.

Como podemos edificar um alicerce forte o bastante para suportar as vicissitudes da vida? Como podemos manter a fé e o testemunho que nos serão exigidos para que possamos experimentar a alegria prometida aos fiéis? É necessário um empenho constante e inabalável. A maioria de nós já sentiu uma inspiração tão forte que trouxe lágrimas aos olhos e uma determinação de permanecer sempre fiel. Ouvi a declaração: “Se eu pudesse ao menos ter sentimentos como esses sempre comigo, jamais teria problemas para fazer o que devo”. Tais sentimentos, porém, podem ser fugazes. A inspiração que sentimos durante estas sessões de conferência pode enfraquecer e desaparecer gradualmente, quando vem a segunda-feira e enfrentamos a rotina do trabalho, da escola, de administrar nosso lar e nossa família. Essas coisas podem facilmente desviar nossa mente do que é santo, para o que é material; do que edifica, para o que — se permitirmos — desgasta nosso testemunho, nosso forte alicerce espiritual.

Naturalmente, não vivemos em um mundo onde experimentamos apenas o que é espiritual, mas podemos reforçar nosso alicerce de fé e nosso testemunho da verdade, para que não vacilemos, não fracassemos. Como, talvez se perguntem, podemos obter e manter mais eficazmente o alicerce necessário para sobreviver espiritualmente no mundo em que vivemos?

Permitam-me oferecer-lhes três diretrizes que poderão ajudar-nos nessa busca.

Primeira, fortaleçam seu alicerce por meio da oração. “A oração é o desejo sincero da alma, seja ela proferida ou silenciosa” (“Prayer Is the Soul’s Sincere Desire”, Hymns, nº 145).

Ao orar, que nos comuniquemos realmente com nosso Pai Celestial. É fácil deixar que nossas orações se tornem repetitivas, expressando palavras com pouco ou nenhum conteúdo. Quando nos lembrarmos de que cada um de nós é literalmente filho ou filha espiritual de Deus, não teremos dificuldade para abordá-Lo em oração. Ele nos conhece; Ele nos ama; Ele quer o que é melhor para nós. Que oremos com sinceridade e significado, oferecendo nossa gratidão e pedindo coisas que sentimos serem necessárias. Que escutemos Suas respostas, para que as reconheçamos, quando chegarem. Fazendo assim, seremos fortalecidos e abençoados. Passaremos a conhecê-Lo e a saber o que Ele deseja para a nossa vida. Por conhecê-Lo, por confiar em Sua vontade, nosso alicerce de fé será reforçado. Se alguém dentre nós tem sido lento para dar ouvidos ao conselho de orar sempre, não há melhor hora para começar do que agora. William Cowper declarou: “Satanás treme quando vê ajoelhar-se o mais fraco dos santos” (William Neil, comp., Concise Dictionary of Religious Quotations, [1974], p. 144).

Que não negligenciemos nossas orações familiares. Elas são um inibidor eficaz contra o pecado e, portanto, a melhor e mais produtiva fonte de alegria e felicidade. O velho ditado ainda é verdadeiro: “A família que ora unida permanece unida”. Ao darmos o exemplo da oração aos nossos filhos, estaremos também os ajudando a iniciarem o aprofundamento do próprio alicerce de fé e testemunho, do qual precisarão durante toda a vida.

Minha segunda diretriz: Que estudemos as escrituras e “meditemos nelas dia e noite”, conforme aconselhado pelo Senhor no livro de Josué 1:8.

Em 2005, centenas de milhares de santos dos últimos dias aceitaram o desafio do Presidente Hinckley de ler o Livro de Mórmon até o final daquele ano. Acredito que dezembro de 2005 bateu o recorde de horas dedicadas para vencer o desafio no prazo. Fomos abençoados ao completar a tarefa; nosso testemunho se fortaleceu, nosso conhecimento aumentou. Quero incentivar todos nós a que continuemos a ler e a estudar as escrituras, para que as compreendamos e apliquemos em nossa vida as lições que lá encontramos. Parafraseando o poeta James Phinney Baxter:

O que estuda e estuda, mas nunca aprende,

É como o que ara e ara, mas nunca semeia.

(“The Baxter Collection”, Baxter Memorial Library, Gorham, Maine)


Empregar algum tempo por dia estudando as escrituras, sem dúvida, reforçará nosso alicerce de fé e nosso testemunho da verdade.

Lembrem-se comigo da alegria que Alma sentiu ao viajar da terra de Gideão para o sul, em direção à terra de Mânti e encontrar os filhos de Mosias. Havia algum tempo que Alma não os via e sentiu-se muito feliz ao descobrir “que eles ainda eram seus irmãos no Senhor; sim, e haviam-se fortalecido no conhecimento da verdade; porque eram homens de grande entendimento e haviam examinado diligentemente as escrituras para conhecerem a palavra de Deus” (ver Alma 17:1, 2).

Que possamos também conhecer a palavra de Deus e conduzir nossa vida de acordo com ela.

Minha terceira diretriz para a edificação de um firme alicerce de fé e testemunho envolve o serviço.

Certa manhã, enquanto dirigia para o escritório, passei por uma tinturaria onde havia uma placa na janela. Lá se lia: “É o Serviço Que Conta”. A mensagem da placa simplesmente não me saía do pensamento. De repente, lembrei-me por quê. De fato, realmente, é o serviço que conta — o serviço do Senhor.

No Livro de Mórmon, lemos a respeito do nobre rei Benjamim. Com a verdadeira humildade de um líder inspirado, ele expressou o desejo de servir a seu povo e de guiá-lo nos caminhos da retidão. Declarou-lhes:

“Eis que vos digo, ao afirmar-vos haver empregado meus dias a vosso serviço, que não é meu desejo vangloriar-me, porque só estive a serviço de Deus.

E eis que vos digo estas coisas para que aprendais sabedoria; para que saibais, que quando estais a serviço de vosso próximo, estais somente a serviço de vosso Deus” (Mosias 2:16–17).

Esse é o serviço que conta, o serviço para o qual todos fomos chamados: o serviço do Senhor Jesus Cristo.

Ao longo do caminho da vida, notaremos que não somos os únicos viajantes. Existem outros que precisam de ajuda. Existem pés a ser firmados, mãos a segurar, mentes a incentivar, corações para inspirar e almas para salvar.

Há treze anos, tive o privilégio de dar uma bênção a uma linda jovenzinha de 12 anos de idade, Jami Palmer. Os médicos diagnosticaram um câncer em seu organismo, e ela se sentia assustada e confusa. Precisou submeter-se a uma cirurgia e a uma dolorosa quimioterapia. Hoje, ela está livre do câncer e é uma linda moça de 26 anos de idade e já realizou muitas coisas na vida. Há algum tempo, em sua hora de maior escuridão, em que qualquer possibilidade futura parecia cruel, ela soube que a perna, onde o câncer se alojara, exigiria múltiplas cirurgias. Aquela caminhada, há muito tempo planejada com sua classe de Moças, que seguiria por uma trilha acidentada até a Caverna Timpanogos —localizada nas Montanhas Wasatch, a 64 quilômetros ao sul de Salt Lake City, Utah — estava fora de questão, pensou. Jami contou às amigas que teriam que subir a trilha sem ela. Estou certo de que havia um nó em sua garganta e decepção no coração. Mas aí as outras jovens responderam enfaticamente: “Não, Jami; você vai conosco!”

“Mas não posso andar”, foi a resposta angustiada.

“Nesse caso, Jami, carregaremos você até o topo!” E foi o que fizeram.

Hoje, a caminhada é só uma recordação mas, na realidade, é muito mais. James Barrie, poeta escocês, declarou: “Deus deu-nos recordações, para que possamos ter as rosas da primavera no inverno da nossa vida” (paráfrase de James Barrie, em Laurence J. Peter, comp. Peter’s Quotations: Ideas for Our Time [1977], p. 335). Nenhuma daquelas preciosas jovens jamais se esquecerá daquele dia memorável em que um Pai Celestial amoroso olhou para baixo com um sorriso de aprovação e grande satisfação.

Ele, ao alistar-nos na Sua causa, convida-nos a achegar-nos a Ele e a sentir Seu Espírito em nossa vida.

Ao estabelecermos um firme alicerce em nossa vida, lembremo-nos de Sua preciosa promessa:

Se Deus é convosco, a quem temereis?

Ele é vosso Deus, seu auxílio tereis.

Se o mundo vos tenta, se o mal faz tremer,

Com mão poderosa vos há de suster.

(“How Firm a Foundation,” Hymns, no. 85)


Que cada um se qualifique para merecer essa bênção. É minha humilde oração, em nome de Jesus Cristo, nosso Salvador. Amém.

domingo, 12 de junho de 2011

Cultivar Tradições Virtuosas

Élder Donald L. Hallstrom
Dos Setenta

"São particularmente importantes [as tradições] que promovem o amor por Deus e união na família e entre os povos."

Sempre serei grato por ter nascido e por ter sido criado no Havaí, que fazem parte do que as escrituras freqüentemente chamam de "as ilhas do mar". Sendo muitas vezes chamado de caldeirão fervente, por causa de sua formação multi-étnica, outras pessoas usam um termo mais preciso, considerando-o um "delicioso cozido", no qual cada cultura conserva sua identidade mas mescla-se harmoniosamente ao caldo social que pode ser saboreado por todos. Além disso, por ter servido numa missão na Inglaterra, por ter morado muito tempo na parte continental dos Estados Unidos e estar agora vivendo e servindo na Ásia, há muito que me interesso pelas culturas e tradições e pela influência que elas exercem na maneira como nos vestimos, pensamos e agimos. Define-se cultura como "as crenças habituais, os padrões sociais de comportamento e ( . . . ) as tendências ( . . . ) mais comuns de um grupo". (Merriam-Webster's Collegiate Dictionary, 10th ed.) As tradições, que são aqueles padrões de comportamento estabelecidos e transmitidos de uma geração para a outra, são uma parte inerente da cultura. Nossa cultura e suas tradições ajudam-nos a estabelecer o nosso senso de identidade e atendem à nossa necessidade vital e humana de fazermos parte do grupo.

A respeito das tradições complementares ao evangelho de Jesus Cristo, Paulo admoestou aos tessalonicenses: "Estai firmes e retende as tradições que vos foram ensinadas". (II Tessalonicenses 2:15) Na Igreja, há tradições vigorosas que nos relembram a força e o sacrifício de nossos antepassados e inspiram nosso trabalho. Entre elas estão a industriosidade, a frugalidade e a total devoção a uma causa digna. Outras são baseadas em doutrinas e padrões que podem parecer estranhos ao mundo, mas que estão em harmonia com o padrão determinado por Deus. Elas incluem a castidade, o recato no vestir, a linguagem limpa, a santificação do Dia do Senhor, o cumprimento da Palavra de Sabedoria e o pagamento do dízimo.

Mesmo em nossa cultura étnica, muitas tradições podem reafirmar padrões e princípios do evangelho. Antigamente, por exemplo, havia um costume entre os havaianos que continua a manifestar-se na vida de muitos de seus habitantes. Ao cumprimentar alguém, a pessoa coloca-se cara a cara com a outra e faz "há", chegando a expelir o hálito para que a outra pessoa o sinta. A tradução literal de "há" é "fôlego da vida". Era um modo de se oferecer à outra pessoa uma demonstração de profundo amor e consideração fraternal. Quando os primeiros estrangeiros chegaram ao Havaí, eles não demonstraram esse mesmo respeito pelas pessoas. Foram chamados de "haole", que significa "sem há".

Se existe um povo que deveria ter "há", ou seja, uma grande caridade e compaixão pelas pessoas, são os membros de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Um verdadeiro santo dos últimos dias sente um amor pelo próximo condizente à sua crença de que todos são seus irmãos e irmãs.

As tradições inspiradoras desempenham um papel importante no processo de conduzir-nos às coisas do Espírito. São particularmente importantes aquelas que promovem o amor por Deus e união na família e entre os povos.

O poder da tradição, porém, também traz um risco considerável. Ele pode fazer com que nos esqueçamos de nossa herança celeste. Para alcançar metas eternas, precisamos reconciliar nossa cultura terrena com a doutrina do evangelho eterno. Esse processo consiste em aceitarmos tudo o que seja espiritualmente inspirador nas tradições de nossa família e sociedade, deixando de lado tudo aquilo que seja um obstáculo à nossa perspectiva e realização eternas. Precisamos deixar de ser homens e mulheres "naturais", como disse o rei Benjamim, e tornar-nos "santos" cedendo ao "influxo do Santo Espírito". (Ver Mosias 3:19.)

Alertando-nos também de seu perigo e gravidade, o Profeta Joseph Smith foi inspirado a esclarecer uma das epístolas de Paulo aos habitantes de Corinto, declarando: "E aconteceu que os filhos, tendo sido criados na sujeição à lei de Moisés, deram ouvidos às tradições de seus pais e não acreditaram no evangelho de Cristo; e nisso tornaram-se impuros". (D&C 74:4)

Não pensem que esse princípio se aplica apenas aos outros e à cultura deles; é válido para todos nós, onde quer que moremos na Terra ou sejam quais forem as condições em que viva a nossa família.

São tradições indesejáveis aquelas que nos afastam da realização das ordenanças sagradas e do cumprimento dos convênios sagrados. Nosso guia deve ser a doutrina ensinada nas escrituras e pelos profetas. As tradições que desprezam o casamento e a família, rebaixam a mulher ou não reconhecem a nobreza de seu papel ordenado por Deus, honram o sucesso material mais do que o espiritual, ou ensinam que confiar em Deus é sinal de fraqueza de caráter, todas elas, afastam-nos das verdades eternas.

De todas as tradições que devemos cultivar em nossa própria vida e no seio de nossa família, a mais importante deve ser a "tradição da retidão". As características marcantes dessa tradição são o amor inabalável por Deus e por Seu Filho Unigênito, o respeito pelos profetas e pelo poder do sacerdócio, a busca constante da companhia do Santo Espírito, e a disciplina do discipulado, que transforma as crenças em ações. Uma tradição de retidão estabelece um padrão de vida que aproxima os filhos dos pais, e a família, de Deus, fazendo com que a obediência deixe de ser um fardo e passe a ser uma bênção.

Num mundo onde as tradições freqüentemente confundem o certo com o errado:

Somos inspirados pela coragem de cada jovem que honra o Dia do Senhor, guarda a Palavra de Sabedoria e permanece casto, ao passo que a cultura popular considera o oposto disso não apenas aceitável, mas esperado de todos.

Somos inspirados pela sabedoria de que todo rapaz siga uma carreira com a qual possa sustentar devidamente a sua mais nova responsabilidade, que é a de dirigir espiritualmente a sua família, ao passo que a riqueza e o poder são altamente valorizados pelo mundo.

Somos inspirados pela nobreza de todo marido e mulher que estabeleceram um relacionamento de igualdade e bondade, quando o egoísmo e a indiferença são tão comuns.

À medida que a natureza celeste de nossa vida começar a ser entendida e vivida, não desejaremos que nada mundano interfira em nossa jornada celestial.

Sentindo-me humilde em minha responsabilidade, mas exultante com a oportunidade de pregar o evangelho e prestar testemunho em todo o mundo, afirmo meu conhecimento de verdades eternas e cultura infinita. Testifico a respeito de quinze homens com chamado profético e autoridade apostólica, e em especial de um deles, o Presidente Gordon B. Hinckley, que preside com dignidade, visão e um claro entendimento das tradições virtuosas. Mais importante que isso, presto testemunho do Salvador e Redentor da humanidade, de Sua Igreja e de Seu amor redentor, em nome de Jesus Cristo. Amém.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Disciplina Moral

Élder D. Todd Christofferson
Do Quórum dos Doze Apóstolos

A disciplina moral é o exercício consistente da liberdade de escolher o certo porque é o certo, mesmo que seja difícil.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Presidente James E. Faust, na época um jovem recruta no Exército dos Estados Unidos, candidatou-se à escola de oficiais. Ele foi sabatinado por uma banca examinadora composta do que chamou de “militares de carreira durões”. Logo as perguntas deles se voltaram para questões religiosas. As últimas perguntas foram:

“Em tempos de guerra, o código moral não deve ser menos rigoroso? O estresse da batalha não justifica que os homens façam coisas que não fariam em situações normais?”

O Presidente Faust relata:

“Percebi ali uma oportunidade de talvez causar uma boa impressão e de demonstrar uma mente aberta. Eu sabia perfeitamente que aqueles homens que me questionavam não viviam de acordo com os padrões que eu aprendera. Ocorreu-me dizer que eu tinha minhas próprias crenças, mas que não queria impô-las a outros. Mas também me passou pela mente o rosto das muitas pessoas a quem eu, como missionário, tinha ensinado a lei da castidade. No final, eu disse simplesmente: ‘Não acredito em duplo padrão de moralidade’.

Saí da entrevista convencido de que eles não haviam gostado das minhas respostas (…) e que minhas notas seriam baixas. Dias mais tarde, quando as notas foram divulgadas, verifiquei com surpresa que eu havia passado. E estava no primeiro grupo de candidatos à escola de oficiais! (…)

Essa foi uma das situações críticas da minha vida”.1

O Presidente Faust reconheceu que todos possuímos o dom do arbítrio moral concedido por Deus — o direito de fazer escolhas e a obrigação de responder por elas (ver D&C 101:78). Ele também compreendeu e demonstrou que, para obtermos resultados positivos, a liberdade moral deve ser acompanhada da disciplina moral.

Por “disciplina moral” quero dizer autodisciplina com base em padrões morais. A disciplina moral é o exercício consistente da liberdade de escolher o certo porque é o certo, mesmo que seja difícil. Essa disciplina rejeita a autoindulgência e favorece o desenvolvimento de um caráter digno de respeito e de verdadeira grandiosidade por meio de serviço cristão (ver Marcos 10:42–45). A raiz da palavra “disciplina” é a mesma de discípulo, sugerindo à mente que a conformidade com o exemplo e os ensinamentos de Jesus Cristo é a disciplina ideal que, juntamente com Sua graça, forma uma pessoa de excelente virtude e moral.

A disciplina do próprio Jesus estava enraizada em Seu discipulado ao Pai. A Seus discípulos, Ele explicou: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra” (João 4:34). Por esse mesmo padrão, nossa disciplina moral está enraizada na lealdade e na devoção ao Pai a ao Filho. É o evangelho de Jesus Cristo que proporciona a certeza moral sobre a qual repousa a disciplina moral.

A sociedade em que muitos de nós vivemos tem falhado há várias gerações em promover a disciplina moral. A sociedade ensina que a verdade é relativa e que cada um decide por si mesmo o que é certo. Conceitos como pecado e erro têm sido condenados como “julgamentos de valor”. Conforme o Senhor descreve: “Todo homem anda em seu próprio caminho e segundo a imagem de seu próprio deus” (D&C 1:16).

Como resultado, a autodisciplina é destruída e a sociedade é obrigada a tentar manter a ordem e a civilidade por meio da repressão. A falta de controle interno nos indivíduos gera o controle externo pelo governo. Certo colunista observou que “o comportamento cavalheiresco [por exemplo, antigamente] protegia as mulheres de atitudes imorais. Hoje, espera-se que as leis contra o assédio sexual refreiem o comportamento imoral. (…)

Nem a polícia nem a justiça podem substituir costumes, tradições e valores morais como meios de regulamentação do comportamento humano. Na melhor das hipóteses, a polícia e a justiça são o último e desesperado recurso de defesa da sociedade civilizada. Nossa dependência das leis para o controle do comportamento demonstra como nos tornamos incivilizados”.2

Na maior parte do mundo vivenciamos uma recessão econômica extensa e devastadora. Ela foi causada por múltiplos fatores, mas um dos principais foi a generalização da conduta desonesta e sem ética, especialmente nos mercados de imóveis e finanças dos Estados Unidos. A reação se concentrou no aumento e na rigidez das regulamentações. Talvez essa medida possa dissuadir alguns de agir de maneira ilícita, mas outros simplesmente se valerão de meios mais criativos para burlar a lei.3 É impossível haver regras suficientes e tão bem articuladas que possam prever e cobrir cada situação; e mesmo que houvesse, sua aplicação seria demasiadamente cara e complicada. Essa abordagem conduz à restrição da liberdade de todos. Como disse de forma notável o Bispo Fulton J. Sheen: “Não quisemos aceitar o jugo de Cristo; pois agora devemos tremer sob o jugo de César”.4

Em suma, somente uma bússola moral interna em cada indivíduo pode efetivamente orientar-nos nas causas e nos sintomas originais da decadência social.A sociedade vai lutar em vão para estabelecer o bem comum, se não denunciar o pecado como pecado e se a disciplina moral não ocupar seu lugar no panteão das virtudes cívicas.5

Aprende-se a disciplina moral no lar. Embora não possamos controlar o que os outros fazem ou deixem de fazer, os santos dos últimos dias podem sem dúvida juntar forças com os que demonstram virtude na própria vida e a transmitem às novas gerações. Lembrem-se da história, no Livro de Mórmon, dos jovens que foram determinantes na vitória nefita na longa guerra entre 66 e 60 a.C. — os filhos do povo de Amon. O caráter e a disciplina deles foram descritos nestas palavras:

“Eram homens fiéis em todas as ocasiões e em todas as coisas que lhes eram confiadas.

Sim, eles eram homens íntegros e sóbrios, pois haviam aprendido a guardar os mandamentos de Deus e a andar retamente perante ele” (Alma 53:20–21).

“Ora, eles nunca haviam lutado. Não obstante, não temiam a morte; e pensavam mais na liberdade de seus pais do que em sua própria vida; sim, eles tinham sido ensinados por suas mães que, se não duvidassem, Deus os livraria” (Alma 56:47).

“Ora, era esta a fé possuída por aqueles de quem falei; eles são jovens, de opinião firme, e depositam continuamente sua confiança em Deus” (Alma 57:27).

Eis aí um padrão para o que deveria ocorrer em nosso lar e na Igreja. Nossos ensinamentos deveriam nutrir-se da nossa fé e concentrar-se primordial e principalmente em instilar na nova geração a fé em Deus. Devemos declarar a necessidade essencial de guardar os mandamentos de Deus e de andarmos em retidão e sobriedade diante Dele ou, em outras palavras, em reverência. Cada um deve-se convencer de que o serviço e o sacrifício pelo bem-estar e felicidade de outros estão acima das mais altas prioridades do próprio conforto e de bens pessoais.

Isso exige mais do que a referência esporádica a um ou outro princípio do evangelho. Exige o ensino constante — principalmente pelo exemplo.

O Presidente Henry B. Eyring ilustrou a visão daquilo que lutamos para alcançar:

“O puro evangelho de Jesus Cristo deve penetrar o coração de [nossos filhos] pelo poder do Espírito Santo. Não será suficiente para eles ter um testemunho da verdade e desejar boas coisas no decurso da vida. Não será suficiente para eles ter esperança de serem limpos e fortalecidos no futuro. Nossa meta é que eles se convertam verdadeiramente ao evangelho restaurado de Jesus Cristo enquanto estão conosco. Dessa forma, eles terão obtido força pelo que são, não só pelo que sabem. Eles se tornarão discípulos de Cristo”.6

Já ouvi alguns pais dizerem que não querem impor o evangelho a seus filhos, mas desejam que eles decidam por si mesmos sobre o que acreditarão e seguirão. Esses pais pensam que assim estarão permitindo que os filhos exerçam seu livre-arbítrio. O que eles se esquecem é que o exercício inteligente do livre-arbítrio exige o conhecimento da verdade, das coisas como elas realmente são (ver D&C 93:24). Sem esse conhecimento, não se pode esperar que os jovens compreendam e avaliem as alternativas que se lhes apresentarem. Os pais devem levar em consideração a maneira como o adversário aborda seus filhos. O inimigo e seus seguidores não estão promovendo a objetividade, mas são vigorosos promotores multimídia do pecado e do egoísmo.

A tentativa de manter a neutralidade em relação ao evangelho é, na realidade, uma rejeição à existência de Deus e de Sua autoridade. Devemos, sim, reconhecer a Ele e Sua onisciência, se quisermos que nossos filhos enxerguem com clareza as opções na vida e sejam capazes de pensar por si mesmos. Eles não precisam aprender por experiências dolorosas que “iniquidade nunca foi felicidade” (Alma 41:10).

Posso compartilhar um simples exemplo de minha própria vida sobre o que os pais podem fazer. Quando eu tinha cinco ou seis anos de idade, eu morava em frente a uma mercearia. Certo dia, dois meninos mais velhos, chamaram-me para ir com eles à mercearia. Enquanto cobiçávamos os doces lá expostos, o menino mais velho pegou um chocolate e o colocou sorrateiramente no bolso. Ele insistiu para que o outro menino e eu fizéssemos o mesmo e depois de alguma hesitação, nós o fizemos. Depois saímos rapidamente da loja e corremos em direções diferentes. Encontrei um esconderijo em casa e abri a embalagem do chocolate. Minha mãe me flagrou com a evidência do chocolate espalhado no meu rosto e me levou de volta à mercearia. Enquanto atravessávamos a rua, me veio a certeza de que pegaria prisão perpétua. Entre soluços e lágrimas, pedi desculpas ao proprietário e paguei-lhe pelo chocolate com uma moeda que minha mãe me havia emprestado (e que tive de merecer mais tarde). O amor e a disciplina de minha mãe colocaram um fim abrupto e precoce a minha vida de crimes.

Todos nós sofremos tentações. Até mesmo o Salvador, mas Ele “não lhes deu atenção” (D&C 20:22). De modo semelhante, não temos de ceder simplesmente porque a tentação aparece. Talvez até queiramos, mas não temos de fazê-lo. Uma amiga incrédula, perguntou a uma jovem adulta determinada a viver a lei da castidade se ela nunca tinha “dormido” com ninguém. “Você não quer?”, perguntou a amiga. A jovem ficou intrigada, porque a pergunta era fora de propósito. O simples querer dificilmente seria uma orientação apropriada para a conduta moral.7

Em alguns casos, a tentação pode ter a força suplementar do vício potencial ou real. Sou grato porque a Igreja é capaz de prover, para um número cada vez maior de pessoas, ajuda terapêutica de vários tipos para auxiliá-las a evitar os vícios ou lidar com eles. Mesmo assim, embora a terapia possa dar suporte à vontade individual, ela não pode substituí-la. Sempre deverá haver o exercício da disciplina — da disciplina moral fundamentada na fé em Deus, o Pai e em Seu Filho, e no que Eles podem alcançar conosco por meio da graça expiatória de Jesus Cristo. Segundo Pedro, “sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos” (II Pedro 2:9).

Não podemos presumir que o futuro será semelhante ao passado — que as coisas e os padrões econômicos, políticos e sociais nos quais confiamos permaneçam como têm sido. Talvez a nossa disciplina moral, se a cultivarmos, venha a ser uma influência benéfica e inspiradora para que outros busquem o mesmo rumo. Poderemos assim exercer um impacto nas tendências e nos eventos futuros. No mínimo, a disciplina moral será uma ajuda imensa a nós para lidarmos com quaisquer tensões e desafios que apareçam em uma sociedade em desintegração.

Ouvimos mensagens amorosas e inspiradas durante esta conferência e, daqui a pouco, o Presidente Thomas S. Monson nos dirá suas palavras finais de admoestação. Ao considerarmos em espírito de oração o que aprendemos ou reaprendemos, creio que o Espírito derramará mais luz sobre aqueles pontos que se aplicarem a cada um de nós. Seremos fortalecidos com a disciplina moral necessária para andarmos retamente diante do Senhor e sermos um com Ele e com o Pai.

Ergo-me com estes meus irmãos e com vocês, meus irmãos e irmãs, como testemunha de que Deus é nosso Pai e de que Seu Filho, Jesus, é nosso Redentor. A lei Deles é imutável; Sua verdade é eterna e Seu amor é infinito. Em nome de Jesus Cristo, o Senhor. Amém.