quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Tentar o Impossível

Élder Jorge F. Zeballos
Dos Setenta

Vida eterna é viver com nosso Pai e com nossa família para todo o sempre. Não seria essa promessa o maior incentivo para fazermos o melhor que está ao nosso alcance?

Quando os doze discípulos foram chamados nas Américas, o Senhor Jesus Cristo deu-lhes este mandamento: “Portanto quisera que fôsseis perfeitos, assim como eu ou como o vosso Pai que está nos céus é perfeito”.1 O Salvador tinha acabado de concluir Sua missão bem-sucedida, abnegada e transcendental na Terra. Isso permitiu que Ele declarasse com autoridade que Ele e Seu Pai, nosso Pai, são o exemplo a ser seguido por todos nós.

De um ponto de vista puramente humano, a princípio, isso aparenta ser uma tarefa impossível. Contudo, ela começa a parecer possível quando compreendemos que não estamos sozinhos nesse empenho. Os mais maravilhosos e poderosos auxílios que um ser humano pode buscar estão ao nosso alcance. Em primeiro lugar, a mão generosa e amorosa do Pai Eterno, que deseja que retornemos a Sua presença para sempre. Por ser nosso Pai, Ele está sempre disposto a perdoar nossos erros, nossas fraquezas e os pecados que cometemos. Esse perdão depende apenas do total e sincero arrependimento. Como complemento disso — e como a maior manifestação de Seu imenso amor por todos os Seus filhos — Ele proveu-nos com os frutos da obra inigualável realizada pelo Salvador ou seja, a Expiação, efetuada por um Filho obediente sempre disposto a fazer a vontade do Pai em benefício de cada um de nós.

O Senhor revelou o seguinte ao Profeta Joseph Smith: “E se guardares meus mandamentos e perseverares até o fim, terás vida eterna, que é o maior de todos os dons de Deus”.2 Essa promessa divina é possível de ser alcançada. Vida eterna é viver com nosso Pai e com nossa família para todo o sempre.3 Não seria essa promessa o maior incentivo para fazermos o melhor que está ao nosso alcance e darmos o máximo que temos em busca do que nos foi prometido?

No início da Restauração, quando esta obra maravilhosa estava prestes a ser manifestada entre os filhos dos homens, o Senhor disse: “Portanto, ó vós que embarcais no serviço de Deus, vede que o sirvais de todo o coração, poder, mente e força, para que vos apresenteis sem culpa perante Deus no último dia”.4 De todo o coração, com todo nosso poder, com toda nossa mente e com toda nossa força — que é o mesmo que dizer, com todo nosso ser.

O Presidente David O. McKay disse: “As ricas recompensas só chegam para os que se esforçam arduamente”.5 Essas recompensas serão concedidas aos que nutrirem sua fé em Jesus Cristo e cumprirem com Sua vontade ao trabalhar, sacrificar-se e doar tudo o que receberam para fortalecer e edificar o reino de Deus.

O cumprimento da promessa divina de termos vida eterna, de alcançarmos a perfeição e de sermos felizes para sempre na unidade familiar depende da sincera demonstração de nossa fé em Jesus Cristo, da obediência aos mandamentos, da perseverança e da diligência por toda a vida.

O Senhor não espera que façamos o que não podemos realizar. O mandamento de tornar-nos perfeitos como Ele incentiva-nos a alcançar o melhor que há em nós, a descobrir e desenvolver os talentos e atributos com que fomos abençoados por um amoroso Pai Eterno, que nos convida a atingir nosso potencial como filhos de Deus. Ele nos conhece. Sabe de nossas capacidades e limitações. O convite e desafio de tornar-nos perfeitos e de alcançar a vida eterna são para toda a humanidade.

Imediatamente após ensinar que “não se exige que o homem corra mais rapidamente do que suas forças o permitam”, o rei Benjamim explicou que “é necessário que ele seja diligente, para que assim possa ganhar o galardão”.6 Deus não exige mais do que o melhor que podemos oferecer porque isso não seria justo, mas tampouco Ele pode aceitar menos do que isso, porque também não seria justo. Portanto, ofereçamos sempre o melhor que pudermos a serviço de Deus e de nosso próximo. Sirvamos em nossa família e em nossos chamados na Igreja da melhor maneira possível. Façamos o melhor que pudermos e sejamos um pouco melhores a cada dia.

A salvação e a vida eterna não seriam possíveis se não fosse pela Expiação efetuada por nosso Salvador, a Quem devemos tudo. Mas para que essas supremas bênçãos sejam eficazes em nossa vida, devemos, primeiro, fazer nossa parte, “pois sabemos que é pela graça que somos salvos, depois de tudo o que pudermos fazer”.7 Façamos com fé, entusiasmo, dedicação, responsabilidade e amor tudo o que estiver ao nosso alcance e estaremos fazendo tudo o que é possível para alcançar o impossível. Isso significa atingir o que para a mente humana é impossível, mas com a intervenção divina de nosso amoroso Pai e o sacrifício infinito efetuado por nosso Salvador, torna-se a maior das dádivas, a mais gloriosa realidade, viver para sempre com Deus e com nossa família.

Oro para que todos nos lembremos e permanentemente renovemos, ao tomar dignamente o sacramento, o compromisso que assumimos com nosso Pai Celestial no momento em que entramos nas águas do batismo, e quando recebemos cada uma das ordenanças do evangelho restaurado. Oro para que façamos o melhor que pudermos em nosso papel de cônjuge, pais, filhos, irmãos e irmãs, em nossos chamados, na divulgação do evangelho, no resgate dos que se afastaram, no trabalho pela salvação de nossos antepassados, em nosso emprego e em nossa vida diária.

Oro para que nossa vida nos permita declarar, tal como fez o Apóstolo Paulo: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé”.8

Ao fazermos isso, estaremos satisfazendo os requisitos determinados por nosso Pai Celestial para abençoar-nos mais do que nunca, tanto nesta vida como na eternidade. Ele anseia por dar-nos tudo o que tem, sim, por fazer-nos participantes de Sua maior dádiva, que é a vida eterna.

Portanto, mesmo que de um ponto de vista puramente humano a perfeição pareça um desafio impossível de ser atingido, testifico que nosso Pai e nosso Salvador nos ensinaram que é possível alcançar o impossível. Sim, é possível alcançar a vida eterna. Sim, é possível sermos felizes hoje e para sempre.

O autor do plano perfeito que contém essas gloriosas promessas é nosso Pai Celestial, e Ele vive. Seu Filho Jesus Cristo tomou sobre Si o fardo de nossos pecados e as injustiças que são cometidas no mundo para que possamos livrar-nos de suas consequências. Sei que nosso Senhor Jesus Cristo vive. O evangelho e o sacerdócio foram restaurados na Terra pela última vez por intermédio do Profeta Joseph Smith. Contamos hoje com a enorme bênção de ter apóstolos e profetas chamados por Deus para dirigir-nos na estrada que conduz de volta ao nosso Pai. O Presidente Thomas S. Monson foi chamado para liderar essa grande obra nestes nossos dias. Ele é um profeta de Deus. Presto testemunho disso em nome de Jesus Cristo. Amém.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Saber que Sabemos


Élder Douglas L. Callister
Dos Setenta

O testemunho das outras pessoas pode iniciar e nutrir o desejo de ter fé e testemunho, mas, no final, cada pessoa precisa descobrir por si mesma.

Há vários anos, um homem foi acusado de um crime grave. A promotoria apresentou três testemunhas, e todas tinham visto o homem cometer o crime. Depois, a defesa apresentou três testemunhas, e nenhuma delas tinha visto o crime ser cometido. O júri ficou confuso. Com base no número de testemunhas, as provas lhes pareciam igualmente divididas. O homem foi inocentado. É óbvio que não importava que incontáveis milhões não tivessem visto o crime: só precisava haver uma testemunha.

No plano do evangelho, só é realmente necessário haver uma testemunha, mas ela precisa ser você. O testemunho das outras pessoas pode iniciar e nutrir o desejo de ter fé e testemunho, mas, no final, cada pessoa precisa descobrir por si mesma. Ninguém pode perseverar para sempre com luz emprestada.

O evangelho restaurado não é mais verdadeiro hoje do que o era quando um menino solitário saiu do Bosque Sagrado, em 1820. A verdade nunca dependeu do número de pessoas que a aceitam. Quando Joseph saiu do bosque, havia uma única pessoa na Terra que sabia a verdade acerca de Deus, o Pai, e de Seu Filho Jesus Cristo. É necessário, porém, que cada um de nós descubra isso por si mesmo e leve esse ardente testemunho para a vida futura.

Quando, aos 23 anos, Heber J. Grant foi chamado para presidir a Estaca Tooele, disse aos santos que acreditava que o evangelho era verdadeiro. O Presidente Joseph F. Smith, que era conselheiro na Primeira Presidência, perguntou: “Heber, você disse que acreditava no evangelho do fundo do coração, mas não prestou seu testemunho de que sabe que ele é verdadeiro. Você não tem certeza absoluta de que o evangelho é verdadeiro?”

Heber respondeu: “Não, não tenho”. Joseph F. Smith virou-se para John Taylor, que era presidente da Igreja, e disse: “Em minha opinião, devemos desfazer agora à tarde o que fizemos pela manhã. Não creio que um homem deva presidir uma estaca sem um conhecimento perfeito e inabalável da divindade desta obra”.

O Presidente Taylor respondeu: “Joseph, Joseph, Joseph, [Heber] sabe tão bem quanto você. A diferença é que ele ainda não sabe que sabe”.1

Em poucas semanas, esse testemunho foi reconhecido, e o jovem Heber J. Grant verteu lágrimas de gratidão pelo perfeito, inabalável e absoluto testemunho que recebeu nesta vida.

É muito importante saber — e saber que sabemos — e que a luz não foi tomada emprestada de outra pessoa.

Há vários anos, presidi uma missão sediada no Centro-Oeste dos Estados Unidos. Certo dia, com um pequeno grupo de missionários, falei com um renomado representante de outra igreja cristã. Esse homem tão afável falou da história e da doutrina de sua própria religião e, em certo ponto, disse estas palavras bem conhecidas: “‘Pela graça sois salvos.’ Todos precisam ter fé em Cristo para serem salvos”.

Entre os presentes, havia um missionário novo. Ele não sabia quase nada de outras religiões e teve que perguntar: “Mas, senhor, o que acontece com o bebezinho que morre antes de ter idade suficiente para compreender e para exercer fé em Cristo?” Aquele homem instruído abaixou a cabeça, olhou para o chão e disse: “Deveria haver uma exceção. Deveria haver uma saída. Deveria haver um meio, mas não há”.

O missionário olhou para mim e, com lágrimas nos olhos, disse: “Puxa, presidente, nós realmente temos a verdade, não é mesmo?”

O momento em que nos damos conta de nosso testemunho, o momento em que percebemos que sabemos, é doce e sublime. Esse testemunho, se nutrido, envolve-nos como um manto. Quando vemos a luz, somos envolvidos por ela. A luz da compreensão se acende dentro de nós.

Conversei certa vez com um excelente rapaz que não era da nossa religião, embora tivesse assistido à maior parte de nossas reuniões de adoração por mais de um ano. Perguntei por que ele não havia-se filiado à Igreja. Ele respondeu: “Porque não sei se ela é verdadeira. Acho que ela pode muito bem ser verdadeira, mas não posso levantar-me e testificar, como vocês fazem: ‘Sei, sem dúvida, que é verdadeira’”.

Perguntei: “Você já leu o Livro de Mórmon?” Ele respondeu que tinha lido algumas partes do livro.

Perguntei se tinha orado a respeito do livro. Ele respondeu: “Eu o mencionei em minhas orações”.

Disse a esse jovem amigo que, enquanto ele fosse superficial em sua leitura e orações, jamais descobriria, nem que se passasse uma eternidade. Mas, se ele reservasse uma ocasião para jejum e súplica, a verdade arderia em seu coração, e então saberia que sabia. Ele não falou mais nada, mas disse à esposa, na manhã seguinte, que faria um jejum. No sábado seguinte, foi batizado.

Se você quiser saber que sabe o que sabe, é preciso pagar o preço. E só você pode pagar esse preço. Há procuradores para realizar as ordenanças, mas não para adquirir um testemunho.

Alma descreveu a conversão com estas belas palavras: “Eis que jejuei e orei durante muitos dias, a fim de saber estas coisas por mim mesmo. E agora sei por mim mesmo que são verdadeiras, porque o Senhor Deus mas revelou (Alma 5:46)”.

Quando nos damos conta do testemunho, surge um desejo ardente de prestar esse testemunho a outras pessoas. Quando Brigham Young saiu das águas do batismo, ele disse: “O Espírito do Senhor estava sobre mim, e senti que meus ossos se consumiriam a menos que eu falasse para as pessoas (...). O primeiro discurso que fiz na vida durou mais de uma hora. Abri a boca, e o Senhor falou por mim”.2 Assim como o fogo não queima, a menos que a chama seja exposta, o testemunho não pode perdurar se não for expresso.

Brigham Young disse o seguinte, sobre Orson Pratt: “Se o irmão Orson [fosse] cortado em pedacinhos, cada um deles gritaria: ‘o mormonismo [é] verdadeiro’”.3 O patriarca Leí louvou seu nobre filho Néfi com estas palavras: “Eis porém que não foi ele, mas sim o Espírito do Senhor que estava nele que lhe abriu a boca para falar, de maneira que não podia fechá-la (2 Néfi 1:27)”.

A oportunidade e a responsabilidade de prestar testemunho ocorrem, em primeiro lugar, no ambiente familiar. Devemos agir de modo que nossos filhos se lembrem do brilho em nosso olhar, do som de nosso testemunho vibrante em seus ouvidos e do que sentiram no coração quando prestamos a eles — nosso público mais precioso — o testemunho de que Jesus é mesmo Filho do próprio Deus e que Joseph foi Seu profeta. Nossa posteridade precisa saber que sabemos, porque lhe dizemos isso com freqüência.

Os primeiros líderes da Igreja pagaram um alto preço para estabelecer esta dispensação. Talvez nos encontremos com eles, no mundo vindouro, e ouçamos seu testemunho. Quando formos chamados a testificar, o que diremos? Haverá verdadeiros bebês e verdadeiros gigantes nas coisas espirituais, no mundo vindouro. A eternidade é um tempo demasiadamente longo para se viver sem luz, especialmente se nosso cônjuge e nossos descendentes também viverem nas trevas porque não havia luz dentro de nós e, por isso, outros não puderam acender suas lâmpadas.

Devemos ajoelhar-nos todas as manhãs e todas as noites e implorar ao Senhor que nunca percamos a fé, o testemunho ou a virtude. Só é realmente necessário haver uma testemunha, mas ela precisa ser você.

Eu tenho testemunho. Ele anseia por ser expresso. Presto testemunho de que o poder do Deus vivo está nesta Igreja. Eu sei que sei, e meu testemunho é verdadeiro, em nome de Jesus Cristo. Amém.

domingo, 7 de agosto de 2011

O Presente

Élder Lance B. Wickman
Dos Setenta

Contanto que tenhamos vivido o Presente de maneira a fazermos jus à graça purificadora da Expiação, viveremos eternamente com Deus.

Três semanas atrás, fiz uma incursão pelo Passado. Naquele momento, redescobri o Presente. E é sobre o Presente que desejo falar hoje.

Uma designação da Igreja me levou das vastas áreas do Pacífico ao Vietnã. Para mim, foi mais do que a mera travessia aérea de um oceano: foi uma viagem no tempo. Há mais de 40 anos eu servira nos campos de batalha daquele país como oficial de infantaria. Lembranças desse local ficaram profundamente gravadas na minha mente, bem como a de seu povo e dos companheiros de guerra com quem lutara. Jacó escreveu certa vez: “Nossa vida (…) passou como se fosse um sonho” (Jacó 7:26). Foi exatamente assim comigo. E agora eu estava voltando das minhas lembranças para aquele lugar, depois de quase meio século. Ao terminar minhas atribuições da Igreja, decidi visitar de novo aqueles campos onde haviam sido travadas terríveis batalhas. Acompanhado pela minha querida esposa, comecei a peregrinação.

Nem sabia o que esperar depois de tantos anos. E o que vi foi de fato surpreendente. Em vez de um povo destruído pela guerra, achei uma população jovial e vibrante. Em vez de uma zona rural devastada pelo fogo de artilharia, deparei-me com campos serenos e verdejantes. Até a selva parecia ter renascido. Creio que, de certa forma, eu esperava defrontar-me com o Passado, mas o que achei foi o Presente — e a promessa de um Futuro brilhante. Lembrei que “(…) O choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Salmos 30:5).

Ao andar de novo no campo e numa trilha da floresta, voltei a ouvir mentalmente o matraquear de metralhadoras, o silvo de estilhaços e o barulho de armas menores. Tornei a ver o rosto bronzeado de jovens amigos que, como prova de devoção, fizeram o sacrifício supremo. E pensei num deles, em um dia em particular — um único dia — 3 de abril de 1966. Era Domingo de Ramos — época de Páscoa. Já faz quase 42 anos, e quase nesta mesma época.

Nosso batalhão de infantaria chegara ao Vietnã vários meses antes. Eu era tenente, líder de um pelotão de infantaria. Estávamos envolvidos quase constantemente em operações de combate. Amanhecera e nosso batalhão estava bem no meio do território inimigo. Logo no início da manhã, mandei uma patrulha de reconhecimento de cerca de 10 homens. Um deles era o Sargento Arthur Morris. Nessa missão, muitos homens foram atingidos por tiros, inclusive o Sargento Morris que sofrera um ferimento leve. Por fim, os integrantes da patrulha voltaram mancando até onde estávamos.

Mandamos uma mensagem pelo rádio pedindo um helicóptero. Ao encaminhar os feridos ao helicóptero, disse ao Sargento Morris que também entrasse. Ele ficou hesitante. Mais uma vez, disse-lhe que embarcasse. Novamente se mostrou reticente. Insisti com ele, mas ele tornou a recusar. Por fim, dei uma ordem: “Sargento Morris, entre no helicóptero”. Lançou-me um olhar suplicante, como que implorando: “Por favor, senhor” e pronunciou estas palavras que jamais esquecerei: “Eles não conseguirão matar um sujeito durão como eu”.

A cena inteira ficou gravada na minha mente como um quadro de batalha: a clareira na floresta, o barulho palpitante e ensurdecedor da hélice, o piloto a olhar-me impaciente e meu amigo insistindo para ficar com seus companheiros. Acabei cedendo e fiz sinal para o helicóptero partir, levando consigo a esperança de Futuro. Antes do pôr-do-sol daquele mesmo dia, meu caro amigo, o Sargento Arthur Cyrus Morris, caiu morto, atingido por fogo inimigo. E na minha mente continua a ecoar sem cessar sua exclamação: “Eles não conseguirão matar, não conseguirão matar, não conseguirão matar…”

É claro que, de certa forma, ele estava terrivelmente enganado. A mortalidade é extremamente frágil. Somente um batimento cardíaco ou um suspiro separa este mundo do próximo. Num instante, meu amigo era uma pessoa cheia de vida e energia; no outro, seu espírito imortal partira, deixando o tabernáculo mortal como uma massa de argila inerte. A morte é um umbral que todos atravessarão. Assim como o Sargento Arthur Morris, nenhum de nós sabe quando esse momento chegará. De todos os desafios que enfrentamos, talvez o maior seja a sensação errônea de que a mortalidade dura para sempre e a impressão que disso decorre: a de podermos adiar o momento de pedir e oferecer o perdão, que é, conforme ensina o evangelho de Jesus Cristo, um dos principais propósitos da mortalidade.

Esta profunda verdade é ensinada por Amuleque no Livro de Mórmon:

“Pois eis que esta vida é o tempo para os homens prepararem-se para encontrar Deus; sim, eis que o dia desta vida é o dia para os homens executarem os seus labores. (…) [Portanto], que não deixeis o dia do arrependimento para o fim; (…) porque o mesmo espírito que possuir vosso corpo quando deixardes esta vida, esse mesmo espírito terá poder para possuir vosso corpo naquele mundo eterno” (Alma 34:32–34; grifo do autor).

Que expressão forte Amuleque usa: o “dia desta vida!” O apóstolo Tiago expressa essa idéia da seguinte forma: “Digo-vos que não sabeis o que acontecerá amanhã. Porque, que é a vossa vida? É um vapor que aparece por um pouco, e depois se desvanece” (Tiago 4:14). E a pessoa que somos quando partimos desta vida é a pessoa que seremos quando ingressarmos na próxima. Devemos ser gratos por termos o Presente.

Apesar de terrivelmente equivocado, de certa forma o Sargento Morris também estava certo! Somos de fato imortais, na medida em que a Expiação de Cristo vence a morte, tanto física quanto espiritual. E contanto que tenhamos vivido o Presente de maneira a fazermos jus à graça purificadora da Expiação, viveremos eternamente com Deus. Esta vida não é um período para apenas possuirmos e acumularmos, mas sobretudo para doarmos e nos aperfeiçoarmos. A mortalidade é o campo de batalha no qual se confrontam a justiça e a misericórdia. Mas elas não precisam se contrapor, pois se reconciliam na Expiação de Jesus Cristo para todos os que fizerem uso sábio do Presente.

Compete-nos assim tanto pedir quanto oferecer esse perdão, a fim de nos arrependermos e sermos caridosos com o próximo, o que nos permite passar pela porta que o Salvador mantém aberta e que constitui o limiar desta vida para a exaltação. O Presente é o dia de perdoarmos as “ofensas” alheias, com o conhecimento seguro de que assim o Senhor perdoará as nossas. Lucas declarou de modo significativo: “Sede, pois, misericordiosos” (ver Lucas 6:36; grifo do autor). Talvez a perfeição nos escape nesta vida, mas podemos ser misericordiosos. E no fim, o arrependimento e o perdão estão entre as principais exigências de Deus para nós.

Ao fim da minha viagem pelo tempo, olhei os campos serenos do Presente e vi em sua fertilidade a promessa do Futuro. Pensei no meu amigo, o Sargento Arthur Cyrus Morris. Pensei naquele longínquo e fatídico Domingo de Ramos. E senti profunda gratidão pelo Redentor da manhã de Páscoa que nos concede a vida, Aquele que, ao descer abaixo de todas as coisas nos permite erguer-nos acima de todas as coisas — no Futuro. . . mas isso apenas se fizermos bom uso do Presente. Em nome de Jesus Cristo. Amém.