sábado, 14 de janeiro de 2012

O Domingo Virá

Élder Joseph B. Wirthlin 
Do Quórum dos Doze Apóstolos


Graças à vida e ao sacrifício eterno do Salvador do mundo, seremos reunidos a nossos entes queridos.


Sinto-me grato por estar com vocês hoje e poder fortalecer-me com seu testemunho. Não posso expressar o quanto me sinto agradecido por suas bondosas palavras de apoio, suas manifestações de amor e suas orações.
Gostaria de relembrar hoje algumas coisas da minha história pessoal.
Nasci de bons pais. Com meu pai, Joseph L. Wirthlin, aprendi o valor do trabalho árduo e da compaixão. Ele foi bispo da nossa ala durante a Grande Depressão. Tinha genuína preocupação com os aflitos. Estendia a mão para os necessitados não por ser esse o seu dever, mas porque esse era o seu sincero desejo.
Cuidava incansavelmente de muitos e abençoava a vida dos que sofriam. Para mim, ele foi o bispo ideal.
Aqueles que conheceram meu pai sabiam como ele era ativo. Alguém me disse, certa vez, que ele podia fazer o trabalho de três homens. Raramente diminuía o ritmo. Em 1938, dirigia uma empresa muito bem-sucedida, quando recebeu um chamado do Presidente da Igreja, Heber J. Grant.
O Presidente Grant disse que iriam reorganizar o Bispado Presidente naquele dia e que ele queria que meu pai servisse como conselheiro de LeGrand Richards. Isso pegou meu pai de surpresa, e ele perguntou se, primeiro, poderia orar a respeito disso.
O Presidente Grant disse: “Irmão Wirthlin, só faltam 30 minutos para a próxima sessão da conferência, e eu gostaria de descansar um pouco. Qual é sua resposta?”
É claro que meu pai disse sim. Ele serviu por 23 anos, nove dos quais como Bispo Presidente da Igreja.
Meu pai tinha 69 anos quando faleceu. Eu estava com ele quando, de repente, desmaiou. Pouco depois, veio a falecer.
Penso muito em meu pai. Sinto saudades dele.
Minha mãe, Madeline Bitner, foi outra grande influência em minha vida. Em sua juventude, era uma excelente atleta e campeã de corridas. Sempre foi bondosa e amorosa, mas seu ritmo era exaustivo. Freqüentemente dizia: “Apressem-se”. E quando ela dizia isso, nós nos apressávamos. Talvez esse tenha sido um dos motivos pelos quais eu corria tanto quando jogava futebol americano.
Minha mãe tinha grandes expectativas em relação aos filhos e deles esperava sempre o melhor. Ainda me lembro de ouvi-la dizer: “Não seja relaxado — Você precisa fazer melhor que isso”. Relaxado era a palavra que ela usava para alguém preguiçoso que não atingia todo o seu potencial.
Minha mãe faleceu quando estava com 87 anos. Penso muito nela e sinto saudades dela, mais do que posso expressar.
Minha irmã caçula, Judith, era escritora, compositora e professora. Ela amava muitas coisas, inclusive o evangelho, a música e a arqueologia. O aniversário de Judith era poucos dias antes do meu. A cada ano, em seu aniversário, eu lhe dava uma nota novinha de um dólar como presente. Três dias depois, ela me dava cinqüenta centavos de dólar como presente de aniversário.
Judith faleceu há poucos anos. Tenho saudades dela e penso muito nela.
E isso me faz lembrar de minha esposa, Elisa. Lembro-me da primeira vez que a vi. Como favor para um amigo, fui à casa dela para dar carona à sua irmã, Frances. Elisa abriu a porta e, ao menos para mim, foi amor à primeira vista.
Creio que ela deve ter sentido algo também, porque as primeiras palavras que me lembro que ela disse foram: “Eu sabia que era tu”.
Elisa era especialista em inglês.
Até hoje, ainda considero aquelas cinco palavras como as mais belas do mundo.
Ela adorava jogar tênis e tinha um saque relâmpago. Tentei jogar tênis com ela, mas acabei desistindo depois de concluir que não poderia acertar numa bola que não conseguia ver, de tão rápida.
Ela era minha força e minha alegria. Graças a ela, sou um homem, marido e pai melhor. Casamos, tivemos oito filhos e caminhamos juntos por 65 anos de vida.
Devo à minha mulher mais do que posso expressar. Não sei se já houve algum casamento perfeito, mas do meu ponto de vista, acho que o nosso era.
Quando o Presidente Hinckley falou, durante o funeral da irmã Wirthlin, disse que era devastador e arrasador perder alguém amado. É algo que abala a alma.
Ele estava certo. Assim como Elisa foi a minha maior alegria, sua morte é hoje a minha maior tristeza.
Nas horas solitárias, passei muito tempo pensando nas coisas eternas. Meditei nas consoladoras doutrinas da vida eterna.
Durante minha vida, ouvi muitos sermões sobre a Ressurreição. Tal como vocês, sei de cor os eventos daquele primeiro domingo de Páscoa. Marquei em minhas escrituras as passagens referentes à Ressurreição e tenho à mão muitas declarações importantes proferidas pelos profetas modernos sobre esse assunto.
Sabemos o que é a Ressurreição — a reunião do espírito e do corpo em sua perfeita forma.1
O Presidente Joseph F. Smith disse: “Poderemos reencontrar e rever aqueles de quem tivemos que nos separar nesta vida. Encontraremos o mesmo ser idêntico com quem nos associamos aqui na carne”.2
O Presidente Spencer W. Kimball ampliou essa declaração dizendo: “Tenho a certeza de que se pudermos imaginar-nos em nossa melhor condição física, mental e espiritual, será assim que voltaremos”.3
Quando formos ressuscitados, “este corpo mortal será levantado num corpo imortal (…) para não mais [morrermos]”.4
Conseguem imaginar isso? As melhores condições de vida? Sem doença, sem dor, sem o fardo dos males que freqüentemente nos acometem na mortalidade?
A Ressurreição está no cerne de nossas crenças cristãs. Sem ela, nossa fé não teria sentido. Como disse o Apóstolo Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, logo é vã a nossa pregação e também é vã a [nossa] fé”.5
Ao longo de toda a história do mundo sempre houve muitas almas grandes e sábias, muitas das quais afirmavam ter um conhecimento especial de Deus. Mas quando o Salvador levantou-Se do sepulcro, Ele fez algo que ninguém jamais fez. Fez algo que ninguém mais poderia fazer. Ele rompeu as cadeias da morte, não apenas para Si mesmo, mas para todos os que já viveram, tanto justos quanto injustos.6
Quando Cristo Se levantou do sepulcro, tornando-Se as primícias da Ressurreição, Ele tornou essa dádiva acessível a todos. E com esse ato sublime, Ele abrandou a tristeza devastadora e arrasadora que abala a alma dos que perderam preciosos entes queridos.
Como deve ter sido sombria a sexta-feira na qual Cristo foi pregado na cruz.
Naquela terrível sexta-feira, a terra tremeu e o dia escureceu. Terríveis tempestades fustigaram a Terra.
Os homens que maldosamente planejaram Sua morte regozijaram-se. Eliminando-se Jesus, com certeza Seus seguidores se dispersariam. Naquele dia, sentiram-se triunfantes.
Naquele dia, o véu do templo rasgou-se em dois.
Maria Madalena e Maria, mãe de Jesus, estavam cheias de dor e desespero. O homem sublime que elas tinham amado e honrado pendia da cruz, sem vida.
Naquela sexta-feira, os Apóstolos estavam arrasados. Jesus, seu Salvador — o homem que tinha andado sobre as águas e revivido os mortos — Ele mesmo estava à mercê de homens iníquos. Eles O viram ser subjugado por Seus inimigos, sem que nada pudessem fazer.
Naquela sexta-feira, o Salvador da humanidade foi humilhado, ferido, maltratado e desprezado.
Foi uma sexta-feira cheia de tristeza devastadora e arrasadora que abalou a alma dos que amavam e honravam o Filho de Deus.
Creio que aquela sexta-feira foi o dia mais sombrio de todos, desde o princípio da história do mundo.
Mas a trágica situação daquele dia não durou muito tempo.
O desespero não se prolongou porque no domingo, o Senhor ressuscitado rompeu as cadeias da morte. Ergueu-Se do sepulcro e apareceu gloriosamente triunfante como o Salvador de toda a humanidade.
Então, num instante, os olhos que estavam cheios de copiosas lágrimas ficaram enxutos. Os lábios que tinham sussurrado orações de aflição e dor encheram o ar de maravilhoso louvor, porque Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo, estava diante deles como as primícias da Ressurreição, a prova de que a morte era apenas o início de uma nova e maravilhosa existência.
Todos temos as nossas próprias sextas-feiras — aqueles dias em que o próprio universo parece esfacelar e vemos as ruínas de nosso mundo espalhadas a nossos pés. Todos passaremos por momentos assim, dos quais nos parecerá impossível recuperar-nos. Todos teremos nossas sextas-feiras.
Mas testifico a vocês, em nome Daquele que conquistou a morte, que o domingo virá. Em meio às trevas de seu sofrimento, o domingo virá.
Seja qual for o nosso desespero, seja qual for a nossa dor. O domingo virá. Nesta vida ou na próxima. O domingo virá.
Testifico-lhes que a Ressurreição não é uma fábula. Temos o testemunho pessoal daqueles que O viram. Milhares de pessoas do Velho e do Novo Mundo foram testemunhas do Salvador ressuscitado. Tocaram-Lhe as mãos, os pés e o lado. Derramaram lágrimas de incontida alegria ao abraçarem-No.
Depois da Ressurreição, os discípulos sentiram-se revigorados. Viajaram pelo mundo inteiro proclamando as gloriosas novas do evangelho. Se quisessem, poderiam ter fugido, desaparecido, e retornado à vida e à ocupação que tinham antes. Com o tempo, o relacionamento que tiveram com Ele teria sido esquecido. Poderiam facilmente ter negado a divindade do Cristo.
Mas não fizeram isso.
Mesmo em face do perigo, do escárnio e das ameaças de morte, adentraram palácios, templos e sinagogas, proclamando corajosamente Jesus, o Cristo, o Filho Ressuscitado do Deus vivo.
Muitos deles, como testemunho final, ofereceram a própria e valiosa vida. Morreram como mártires, tendo nos lábios o testemunho do Cristo Ressuscitado, ao perecer.
A Ressurreição transformou a vida dos que a testemunharam. Acaso não deveria transformar a nossa também?
Todos nos ergueremos do sepulcro. E naquele dia, meu pai abraçará a minha mãe. Naquele dia, mais uma vez tomarei em meus braços a minha amada Elisa.
Graças à vida e ao sacrifício eterno do Salvador do mundo, seremos reunidos a nossos entes queridos.
Naquele dia, conheceremos o amor de nosso Pai Celestial. Naquele dia, teremos grande regozijo pelo Messias ter vencido todas as coisas para que pudéssemos viver para sempre.
Devido às sagradas ordenanças que recebemos nos templos sagrados, nossa partida desta breve existência mortal não separa por muito tempo os relacionamentos estreitados por cordões tecidos de laços eternos.
É meu solene testemunho que a morte não é o fim da existência. “Se esperamos em Cristo só nesta vida, somos os mais miseráveis de todos os homens”.7 Graças ao Cristo ressuscitado, “Tragada foi a morte na vitória”.8
Graças a nosso amado Redentor, podemos elevar a voz, mesmo estando em nossas mais sombrias sextas-feiras, e proclamar: “Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, [ó morte], a tua vitória?”9
Quando o Presidente Hinckley falou da terrível solidão que advém aos que perderam alguém amado, ele também prometeu que, na calada da noite, uma voz mansa e inaudível sussurrará paz à nossa alma, dizendo: “Tudo bem”.
Sinto-me imensamente grato pelas sublimes doutrinas verdadeiras do evangelho e pelo dom do Espírito Santo, que me sussurrou à alma as palavras de paz e consolo prometidas por nosso amado profeta.
Das profundezas do meu sofrimento, tenho-me regozijado na glória do evangelho. Regozijo-me pelo Profeta Joseph Smith ter sido escolhido para restaurar o evangelho na Terra nesta última dispensação. Regozijo-me por termos um profeta, o Presidente Gordon B. Hinckley, que dirige a Igreja do Senhor em nossos dias.
Que compreendamos e tenhamos gratidão pelas inestimáveis dádivas que recebemos como filhos e filhas de um Pai Celestial amoroso e pela promessa daquele dia radiante em que todos nos ergueremos triunfantes do sepulcro.
Que sempre saibamos, por mais sombria que seja a nossa sexta-feira, que o domingo virá. Essa é minha oração, em nome de Jesus Cristo. Amém.

Nenhum comentário:

Postar um comentário